TEMAS DE ATUALIZAÇÃO

AVC PÓS REVASCULARIZAÇÃO DO MIOCÁRDIO

Publicação Original:
Multicenter review of preoperative risk factors for stroke after coronary artery bypass grafting.
John R, Choudhri AF, Weinberg AD, Ting W, Rose EA, Smith CR, Oz MC.
Department of Surgery, Columbia University College of Physicians and Surgeons, New York City, New York, USA.

Ann Thorac Surg 69: 30-35, 2000

As complicações neurológicas da cirurgia cardíaca e da circulação extracorpórea, na maioria das vêzes, tem a característica da imprevisibilidade. Os acidentes vasculares cerebrais (AVC) podem surgir após a realização de um procedimento cirúrgico absolutamente sem anormalidades e suas consequências podem ser trágicas para os pacientes. Os pacientes podem recuperar completamente, podem constituir um campo favorável ao desenvolvimento de outras complicações, como as infecções, por exemplo, podem ir ao óbito ou podem apresentar sequelas permanentes, capazes de restringir a capacidade física e/ou intelectual.

Com o objetivo de avaliar os principais fatores pré-operatórios possivelmente associados ao desenvolvimento dos acidentes vasculares cerebrais após os procedimentos de revascularização do miocárdio, John R, Choudhri AF, Weinberg AD e colaboradores, da Columbia University College of Surgeons, New York, USA realizaram um estudo multicêntrico (Ann Thorac Surgery 69; 30-35, 2000).

O trabalho foi intitulado "Revisão multicêntrica dos fatores de risco pré-operatórios para os acidentes vasculares cerebrais após os enxertos coronários".

Os AVC complicam a evolução pós-operatória em uma percentagem significativa dos pacientes submetidos à revascularização coronária. Não há dados baseados em grandes bancos de dados compulsórios, relatando a incidência de AVC após a revascularização do miocárdio.

Os benefícios da revascularização cirúrgica do miocárdio em relação aos procedimentos médicos e os procedimentos de cateterismo invasivo, são limitados pelas complicações das operações.

Embora a incidência global de complicações após a cirurgia de revascularização tenha reduzido, a incidência de AVC pós-operatório permanece inalterada e oscila entre 0,8% e 6% do total de pacientes operados. O AVC pós-operatório ainda é uma complicação catastrófica e cara da revascularização cirúrgica, com mortalidade de cerca de 25% e um período médio de internação de 25 dias, dos pacientes que sobrevivem ao evento.

Estes dados sugerem que sejam desenvolvidas medidas adicionais com o objetivo de diminuir a incidência de AVC após a revascularização do miocárdio.

Há numerosos estudos publicados que relacionam a ocorrência de AVC e a revascularização do miocárdio em instituições isoladas. Um estudo multicêntrico seria mais preciso, devido aos diferentes aspectos do encaminhamento de pacientes para as diversas instituições.

O presente estudo não é apenas multicêntrico; além disso, o estudo também inclui todos os 31 hospitais que realizam cirurgia cardíaca em uma região delimitada. O grupo-estudo, provavelmente fornece uma amostragem adequada dos pacientes cirúrgicos submetidos à revascularização do miocárdio.

Os objetivos do estudo foram:
1. Determinar a incidência de AVC pós revascularização do miocárdio;
2. Identificar os fatores de risco pré-operatório associados ao desenvolvimento do AVC, e
3. Avaliar o impacto do AVC sobre o tempo de permanência e a mortalidade hospitalar.

MATERIAL E MÉTODOS

Todos os pacientes submetidos à cirurgia de revascularização do miocárdio no Estado de Nova Iorque durante o ano de 1995, foram incluidos no estudo. A fonte dos dados foi o Bureau de Pesquisa de Recursos da Saúde do Departamento de Saúde Pública do Estado de Nova Iorque. Apenas os pacientes que foram submetidos à revascularização como o único procedimento cirúrgico foram incluidos. As cirurgias combinadas foram excluidas.

O AVC pós-operatório foi definido como um novo déficit neurológico transitório ou permanente, ocorrido nas primeiras 24 horas da operação. O estudo analisou um total de 26 variáveis, para definir os fatores de risco. Todos os dados foram submetidos à rigorosa análise estatística.

Um total de 19.224 pacientes foram operados por 121 cirurgiões em 31 hospitais situados no Estado de Nova Iorque. Houve 13.797 homens (71,7%) e 5.427 mulheres (28,3%). A idade média dos pacientes foi de 65 +/- 10 anos (25 a 95 anos).

RESULTADOS

Entre os 19.224 pacientes houve 270 casos de AVC pós-operatório (incidência de 1,4%).

Os fatores relacionados ao pré-operatório que influenciam o aparecimento de AVC foram: idade superior a 70 anos, história prévia de AVC, doença vascular periférica, insuficiência renal crônica, fumo e diabetes mellitus.

Os fatores perioperatórios que foram significativamente relacionados ao desenvolvimento de AVC foram: ausência de uso de heparina 48 horas antes da cirurgia, presença de aorta calcificada, presença de doença de múltiplos vasos (3 ou mais vasos) e a duração da circulação extracorpórea.

A hospitalização dos pacientes que apresentaram AVC foi em média de 27,9 +/- 1,9 dias, comparada com 9,1 +/- 0,9 dias dos pacientes que não apresentaram AVC.

A mortalidade hospitalar entre os pacientes com AVC foi de 24,8%; nos pacientes que não apresentaram AVC a mortalidade foi de 2,0%. Do total de pacientes que faleceram no hospital, 14,8% apresentaram AVC.

CONCLUSÕES

Apesar dos progressos da cirurgia cardíaca que determinaram uma melhora geral dos resultados da revascularização do miocárdio, a incidência de AVC permanece relativamente constante e inalterada. O AVC pós-operatório contribui significativamente para a mortalidade e para o prolongamento do período de internação hospitalar. O conhecimento dos principais fatores de risco oferece uma oportunidade de implementar medidas preventivas pré e per operatórias destinadas a reduzir a incidência de AVC. Podemos ainda avaliar a conveniência de selecionar os pacientes para tratamento cirúrgico. Os pacientes idosos com doença aterosclerótica da aorta, especialmente da aorta ascendente e história prévia de AVC são um grupo de risco elevado para o desenvolvimento de AVC pós-operatório, na cirurgia de revascularização do miocárdio.

 

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