CEC PROLONGADA PARA SEVERA INTOXICAÇÃO MEDICAMENTOSA
Publicação Original:
Prolonged Cardiopulmonary Bypass for Sever Drug Intoxication
Miralem Pasic, MD,PhD, Evgenij Potapov MD, Hermann Kuppe, MD, PhD, Roland Hetzer, MD, PhD.
Berlin, Germany
The J Thorac Cardiovasc Surg 119: 379-380, 2000
A circulação extracorpórea, um procedimento standard em cirurgia cardíaca, apenas excepcionalmente é usada para o tratamento de intoxicação severa por drogas, na maioria das vêzes, com resultados pobres. Nós relatamos um caso de uso com sucesso de uma perfusão de bastante longa duração, para tratamento de uma severa intoxicação com a droga antiarrítmica - prajmalium.
Uma mulher de 25 anos de idade foi hospitalizada em virtude da ingestão de 16 tabletes (320 mg) de bitartarato de prajmalium (320 mg) (Neo-Gilurytmal), com possível intenção suicida. A primeira manifestação cardíaca foi um curto período de bradicardia, seguido de dissociação eletro-mecânica e fibrilação ventricular. O intervalo estimado entre a ingestão da droga e o início dos sintomas estava entre 10 e 45 minutos. A instabilidade elétrica e hemodinâmica foi refratária a todas as manobras de ressuscitação, incluindo a desfibrilação elétrica. A paciente foi conduzida ao centro cirúrgico sob massagem cardíaca externa e ventilação mecânica e foi colocada em perfusão, através de esternotomia mediana e canulação da aorta ascendente e do átrio direito. O intervalo entre o início da ressuscitação e a entrada em perfusão normotérmica foi de cerca de 45 minutos.
Durante a CEC, a cada 10 minutos era tentada a desfibrilação elétrica, sem sucesso. Após 55 minutos de CEC a fibrilação ventricular reverteu espontaneamente ao rítmo sinusal. Durante as 4 horas seguintes havia elevação do segmento ST e ondas T gigantes; após aquele período os achados do ECG melhoraram.
Como não há um tratamento específico para a intoxicação com aquela droga, adicionamos várias medidas gerais ao tratamento, como lavagem gástrica, diurese forçada (total de 11 litros durante a CEC), ultrafiltração (37 litros) e hemoabsorção com filtro de carvão inserido no circuito.
Em virtude de insuficiência ventricular direita, as tentativas de remover a CEC nas primeiras 6 horas, foram infrutíferas, apesar do uso de óxido nítrico para reduzir a resistência vascular pulmonar, suporte inotrópico e o implante de um balão intra-aórtico.
Após 16 horas e 40 minutos de perfusão, o estado hemodinâmico da paciente estabilizou-se e a perfusão pode ser interrompida. A meia-vida da droga ingerida corresponde exatamente ao tempo de duração da perfusão.
Durante a hospitalização a paciente teve surtos de ataxia e distúrbios conitivos, instabilidade emocional e outros sintomas neuro-psiquiátricos. Teve alta após 35 dias, sendo transferida para uma unidade neuro-psiquiátrica. Na alta, a ecocardiografia demonstrou função cardíaca normal com pequena redução da contratilidade do ventrículo direito.
A perfusão prolongada foi a única solução terapêutica para a ressuscitação porque a paciente necessitou de mais de 16 horas para recuperar a estabilidade hemodinâmica e elétrica do coração. Usamos a perfusão convencional devido à excelência da drenagem e descompressão cardíacas, que previne contra os riscos da dilatação ventricular. Uma alternativa possível é a canulação femoral, que não requer abertura do tórax mas tem a desvantagem de permitir a distenção das câmaras cardíacas. Em alguns casos, em virtude de alterações ateroscleróticas ou devido ao pequeno diâmetro dos vasos, a canulação femoral não pode ser instituida.
Esta comunicação demonstra que a CEC de emergência pode ser o único recurso terapêutico para estabelecer uma hemodinâmica estável em pacientes que não respondem às manobras convencionais de ressuscitação. A perfusão prolongada permite a recuperação do coração e pode melhorar a eliminação de drogas em "overdose". Esta opção terapêutica deve ser considerada em pacientes com intoxicação severa por drogas e instabilidade hemodinâmica, apesar do tempo prolongado de ressuscitação.
[PRIMEIRO] [ANTERIOR] [PRÓXIMO] [ÚLTIMO] [ÍNDICE] [HOME]