UNIÃO E UNIDADE.

Maria Helena L. Souza *

No número 18.1 (Janeiro/Março 2003) da Revista Brasileira de Cirurgia Cardiovascular, na seção Palavra do Presidente, o ilustre Presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Cardiovascular (SBCCV), Prof. Jarbas Dinkhuysen, em um magnífico editorial, faz a análise crítica minuciosa da atual situação da cirurgia cardíaca em nosso país e do seu potencial de crescimento nos próximos anos. Acompanha o editorial, um diagnóstico completo do estado atual da sociedade que congrega os nossos cirurgiões. Em seguida o trabalho discorre sobre as medidas necessárias ao crescimento e ao fortalecimento da cirurgia cardíaca brasileira e, no inciso e registra a "Criação de novos Departamentos da SBCCV cuja finalidade seria congregar profissionais médicos e não médicos que invariavelmente coadjuvam o Cirurgião Cardiovascular os quais, muitas vezes, não tem o foro adequado par se reunir, tais como Departamento de Cardiologia Clínica e Intensiva, Anestesia, Enfermagem, Psicoterapia, Fisioterapia, Circulação Extracorpórea e Assistência Circulatória, Bioengenharia."

A clara necessidade de união e de atuação harmônica ressaltam em cada uma das linhas do Editorial que, certamente, deverá constituir-se num importante marco na organização da cirurgia cardíaca e na estrutura da sociedade que congrega os cirurgiões do nosso país.

Em seu último congresso nacional, a SBCCV discutiu e aprovou a criação do Departamento de Circulação Extracorpórea e Assistência Circulatória Mecânica que, no parágrafo I do artigo segundo do seu Regimento Interno diz que o DCEACM tem por finalidade: "Congregar os médicos que se dedicam à realização e ao desenvolvimento da circulação extracorpórea e da assistência circulatória mecânica aplicada em cirurgia cardíaca ou áreas afins, bem como, a outros profissionais interessados nesta área."

O Regimento Interno do DCEACM e os Estatutos da Sociedade Brasileira de Circulação Extracorpórea (SBCEC) são muito semelhantes. E não poderia ser de outra forma, já que ambos tratam da associação de profissionais interessados em uma mesma área de atividade prática e conhecimento científico. Esta última, a SBCEC, entretanto, congrega primariamente os perfusionistas.

Cirurgiões, perfusionistas, anestesistas e demais interessados em circulação extracorpórea e assistência circulatória já se reunem na SBCEC há muitos anos. E, pelos menos, nos últimos 20 anos, todas as discussões, cursos, congressos e atividades afins, relativas ao tema, foram realizadas no âmbito da SBCEC.

Louvamos o interesse em reunir o maior número possível de profissionais em torno da SBCCV para o estabelecimento de novas metas e sua conquista. Entretanto, nos parece inapropriada, a forma escolhida para a reunião do pessoal envolvido com a cirurgia cardíaca. Apesar de um grande esforço e muita boa vontade, não conseguimos vislumbrar uma única organização capaz de congregar cirugiões, cardiologistas, hemodinamicistas, intensivistas, anestesistas, psicólogos, enfermeiros, fisioterapeutas e perfusionistas, para citar apenas alguns. Se por um lado, essa unificação aumenta o quadro de membros da SBCCV, por outro lado a torna a mais heterogênea das organizações. É difícil imaginar que um Departamento da SBCCV deverá defender e representar os interesses dos cardiologistas, hemodinamicistas, anestesistas, psicólogos, enfermeiros e fisioterapeutas, mais e melhor que as suas associações profissionais.

Somos partidários da teoria de que a união faz a força; a força da união faz as conquistas; as conquistas fazem o progresso; o progresso faz prosperidade e a sua distribuição faz justiça. E isso requer apenas a organização das idéias, o planejamento das metas e a distribuição das atribuições. Exatamente como vemos a nível continental. O Brasil se prepara para liderar as discussões e as negociações do Mercosul, com as parcerias da Argentina, Uruguai, Paraguai e Bolívia. A atuação do bloco Mercosul é compacta, uníssona e forte. E não requer que Argentina, Uruguai, Paraguai e Bolívia se transformem em estados brasileiros, para que o início e o progresso das negociações sejam viáveis. A força da união é a distribuição dos interesses colocados na mesa de negociações.

As nossas preocupações resultam da atual fase que os perfusionistas atravessam em nosso país. Há uma enorme insatisfação com a SBCEC. Há um afastamento dos perfusionistas da sua sociedade, por múltiplas razões e, do mesmo modo, um distanciamento entre a sociedade e seus membros.

Os perfusionistas estão atravessando uma "entre-safra" de lideranças. E ocorre uma grande e perigosa acomodação em relação à sua coletividade. O espírito coletivo está anestesiado. Não há participação ativa dos perfusionistas nem planejamento da sua sociedade para o futuro imediato ou tardio. A imersão do congresso anual da SBCEC em um evento de maior dimensão, permanentemente realizado na mesma cidade, embora tenha contribuído para assegurar a sobrevivência do congresso, também contribuiu para o distanciamento dos perfusionistas e para uma relativa perda de identidade da sua sociedade representativa.

Devemos, por uma questão de justiça, ressaltar e aplaudir os esforços dispendidos pelas colegas que ocuparam a direção da nossa sociedade nos últimos anos. Por terem trabalhado diante da desmotivação progressiva da classe, sem condições de trabalho adequadas e, sobretudo, sem a necessária independência. Considerando o seu restrito espaço de manobras, desenvolveram um trabalho exemplar que, dentre outras coisas, contribuiu para assegurar a sobrevivência da sociedade, enquanto muitos de seus membros preferiam afastar-se a debater suas idéias.

Essa situação é um excelente caldo de cultura para que algumas insatisfações sejam materializadas na adesão à uma nova entidade (o DCEACM) que, por melhor e mais bem dirigida que seja, não deverá representar mais e melhor os perfusionistas e seus interesses mais legítimos. Corre-se o risco de ter a classe dividida em duas organizações. E separadas por diferenças conceituais e, logo em seguida, "políticas". A experiência tem mostrado que, quando uma categoria profissional se divide em duas organizações, cada uma delas perde força e representatividade. Os opositores (e eles existem) jogam com essa divisão. A categoria perde a sua representatividade ou, o que é pior, passa a disputá-la nas duas organizações.

Vemos claramente na iniciativa da SBCCV, um desejo de ajudar aos perfusionistas. Discordamos apenas em relação aos meios. Apesar de não estar oficialmente credenciada a dissertar sobre as aspirações dos perfusionistas brasileiros, nossa longa atividade com a classe e sua sociedade representativa nos permite dizer que, no momento, os perfusionistas necessitam de, pelo menos:

  1. União e participação em torno da sua própria sociedade;
  2. Constituir uma diretoria representativa da extensa e heterogênea dimensão nacional;
  3. Rever e atualizar os seus estatutos;
  4. Planejar as atividades para o curto, médio e longo prazo visando melhor qualificação técnico-científica e a profissionalização, reconhecida pelas autoridades competentes.
  5. Credenciamento junto aos agentes competentes para receber diretamente os honorários a que fazem júz.

É também nossa opinião que a SBCCV poderia ajudar mais e melhor aos perfusionistas, mediante atuação junto aos seus membros, no sentido de:

  1. Aferir o desempenho dos seus perfusionistas;
  2. Exigir dos seus perfusionistas a posse do Título de Especialista da SBCEC;
  3. Estimular os perfusionistas a participar mais ativamente da sua entidade representativa;
  4. Participar do aperfeiçoamento e da formação técnica-científica dos seus perfusionistas;
  5. Recomendar a formação dos novos perfusionistas de acordo com os padrões internacionalmente em uso;
  6. Evitar o treinamento de indivíduos que não possuam um certificado de terceiro gráu nas áreas das ciências biológicas e da saúde;
  7. Apoiar o credenciamento dos perfusionistas para o recebimento dos honorários inerentes à sua atividade.

É nosso pensamento que qualquer iniciativa não incorporada ao contexto acima sintetizado, incluindo a criação de novas entidades ou departamentos, não atende aos melhores interesses dos perfusionistas brasileiros, na sua fase atual de desenvolvimento.

Apesar das aparentes diferenças, cremos ser indiscutível que todos trabalhamos para que, no menor prazo possível, os perfusionistas brasileiros, como uma comunidade, estejamos melhor ombreados com os nossos colegas dos países mais desenvolvidos, como ocorre com a nossa cirurgia cardiovascular.

Em cada serviço de cirurgia cardiovascular de nosso país, os cirurgiões contam com o mais estreito e respeitoso relacionamento e a mais irrestrita colaboração dos seus perfusionistas. Somos honrados com a confiança, o apoio e o reconhecimento ao nosso trabalho. Nossos cirurgiões, além de chefes são amigos e, muitas vêzes, conselheiros. Esperamos todos, a extensão desse apoio à nossa entidade representativa.

Finalmente, lembramos os esforços dispendidos pelos cirurgiões brasileiros, até conseguir formar a sua própria entidade representativa e deixar de ser um departamento da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC). O mesmo relacionamento que a SBCCV acha conveniente entre sí e a SBC pode ser prescrito para a sociedade representativa dos perfusionistas.

As experiência da mesma natureza, feitas no exterior, igualando os desiguais, já fracassaram ou caminham rapidamente para a insolvência. A avaliação do momento atual da cirurgia cardíaca é feita exclusivamente sob o ponto de vista do cirurgião. E confunde uma sociedade grande com uma sociedade forte. A sociedade forte é representativa da média do pensamento dos seus membros. A defesa do pensamento médio dos membros torna uma sociedade forte, enquanto a imposição de idéias a enfraquece.

Apesar de desnecessário, gostaria de ressaltar que nossa opinião não defende qualquer tipo de separatismo. Ao contrário, pregamos a união dos perfusionistas entre sí e destes com os seus principais aliados. Contudo, os tempos modernos nos mostram que as parcerias, em lugar de qualquer outro tipo de associação, tem oferecido os melhores resultados, em qualquer campo de atividade. Uma verdadeira parceria com perfusionistas, psicólogos, bioengenheiros, cardiologistas clínicos e intensivistas, fisioterapeutas, anestesistas, enfim todos os que trabalham em cirurgia cardíaca, pode ser o melhor caminho para tornar a cirurgia cardíaca e todas as sociedades envolvidas mais fortes e representativas.

Acreditamos, sinceramente, que há formas melhores de contribuir para o desenvolvimento dos perfusionistas e demais interessados em circulação extracorpórea e assistência circulatória mecânica que independem da criação de novas organizações. Estas, como efeito colateral indesejável, podem enfraquecer as sociedades existentes ou acelerar o seu desaparecimento.

Os perfusionistas brasileiros, lenta e progressivamente, com muita ajuda dos nossos cirurgiões, construimos a nossa sociedade representativa que, do mesmo modo que muitas outras, atravessa uma difícil fase de transição. Devemos nos unir em torno da nossa sociedade e trabalhar para o seu crescimento e modernização e, sobretudo, fazer dela uma sociedade mais viva e mais democrática. Precisamos de uma nova estrutura, de novos estatutos, de projetos de desenvolvimento e, principalmente, precisamos descobrir os meios de contribuir com os esforços dos nossos cirurgiões sem ameaçar a nossa união e a nossa individualidade.

* Maria Helena L. Souza
Membro Titular da Sociedade Brasileira de Circulação Extracorpórea
Presidente do Conselho Latinoamericano de Perfusão