O PREÇO DA QUALIDADE DEVE SER JUSTO.

Maria Helena L. Souza *

Caros colegas:

O título acima pode servir para indicar ou anunciar muitas coisas, desde o balcão de legumes nas feiras semanais que ainda sobrevivem em certos pontos das grandes cidades, em contraposição ao desenvolvimento avassalador dos supermercados e dos hortifrutigrangeiros, até às dissertações sobre sistemas de controles e valor agregado. Além disso e felizmente, o título serve também, e essa é a nossa idéia, para discorrer sobre o nosso trabalho, individual e coletivo, como perfusionistas.

Uma estudante de perfusão, com muita propriedade, lembrou uma frase dita, há mais de cem anos, por Madame Curie: "A vida não é fácil para nenhum de nós. Devemos ter perseverança e, acima de tudo, confiança em nós mesmos. Nós devemos acreditar que temos aptidão para alguma coisa e devemos trabalhar para alcançá-la".

Alguns bordões bastante populares podem nos ajudar a compreender e discutir a qualidade do trabalho que realizamos no dia a dia das nossas vidas, tanto individualmente quanto inseridos em nossa coletividade. Uma dessas frases, de autor anônimo, é das mais claras e profundas: "Tudo tem seu preço". Raras coisas na vida, realmente, são grátis. No meu entender, na verdade, nada vem de graça. Tudo o que se consegue, seja muito ou seja pouco, sempre requer sacrifício, trabalho, dedicação e, principalmente, perseverança. Esse é o preço do que conseguimos. Se conseguimos o que desejamos, podemos ficar contentes por ter pago um preço justo. Se não conseguimos o que desejamos, provavelmente não perseveramos o suficiente e, em consequência, pagamos um preço elevado.

A única verdade dos mercados nos mostra que cada um de nós recebe exatamente aquilo pelo que paga. Se você se contenta com um par de sandálias de plástico compradas nas calçadas do bairro, pode pagar por elas a bagatela de 5 ou 10 reais. Mas se, ao contrário, você almeja um par de sapatos de couro legítimo, tratado com amaciantes e impermeabilizantes, você não conseguirá comprá-los por menos de 200 ou 250 reais. Ambos os produtos calçam os nossos pés mas, ao mesmo tempo, refletem realidades diferentes, cuja essência pode ser estendida ao trabalho de qualquer profissional, inclusive ao nosso trabalho de perfusionistas.

A vida, na verdade, segue muito fielmente a lei da entropia que, muito resumidamente, nos diz que a tendência natural das coisas é caminhar da ordem para a desordem. A energia, se não for acumulada, dispersa espontaneamente; esse é um dos seus enunciados. Uma panela com água quente se esfria, se for removida da fonte de calor. Um cubo de gelo derrete se colocado em um ambiente aquecido. As peças de precisão numa oficina, jamais se transformarão em um dispositivo útil, se o relojoeiro não usar as suas ferramentas, ajustar e moldar as peças e montar o relógio. Construir consome energia. Isso demonstra que, em qualquer sistema, se não houver adição de energia, a tendência natural é que o sistema perca estrutura e organização. As coisas da vida não ocorrem de modo diferente. Um grupo de profissionais, uma organização ou uma associação, sem a necessária injeção de energia, se tornarão ultrapassados, complacentes e ineficazes. Como consequência desses fatos, pode-se afirmar que qualidade não é um resultado acidental. E, para aproveitar um outro ditado muito popular: "nada cai do céu!". A qualidade (ou o bom produto) é sempre o resultado de uma soma de fatores que inclui a intenção, o esforço, o direcionamento inteligente e a execução adestrada. Se aplicarmos esses conceitos à nossa atividade profissional e à entidade que nos representa, entenderemos que se não houver a intenção de evoluir, se não houver um esforço nesse sentido, se não houver um planejamento correto e se não houver uma execução adequada - a lei da entropia nos mostra - tenderemos ao desencontro, ao retrocesso e à desorganização ou desordem.

Essa breve introdução "físico-humanística-gerencial" nos transporta à convocação que, em hora tão oportuna, a Sociedade Brasileira de Circulação Extracorpórea, por intermédio de seu ilustre presidente, o colega Wander dos Santos e seus companheiros de diretoria nos fazem, para a ampla discussão e eventual alteração dos estatutos. Com todas as condições para uma avaliação concreta, clara, isenta e, sobretudo, democrática, capaz de iniciar um indispensável processo de modernização da sociedade e sua adaptação às necessidades dos seus membros. E em condições bastante favoráveis. Em primeiro lugar, com tempo suficiente para uma reflexão madura e responsável, capaz de responder às nossas questões essenciais: quem ou o que somos ? o que desejamos ser ? queremos um órgão que nos represente ? como deve ser e funcionar esse órgão ?. Além disso, e pela primeira vez em muitos anos, estaremos reunidos na tarde do primeiro dia do congresso, sem os contratempos de uma assembléia vazia, sonolenta, desatenta e capaz de permanecer como está, aprovando moções antecipadamente estabelecidas por conselheiros, ao mesmo tempo íntimos e estranhos, capazes de ajudar a uns e não a todos, dispostos a manter as coisas estáveis, onde poucas vozes se ouvem e, por coincidência, dizem as mesmas coisas.

Os Estatutos da SBCEC, como muito apropriadamente declara a diretoria, precisam de uma análise isenta e profunda, para exprimir as necessidades e os anseios daqueles a quem deve representar. E essa, caros amigos, é a primeira e grande dúvida ou questão a ser respondida. Todas as demais, sem exceção, irão depender dela, a questão mais simples: quem a sociedade representa ?

Muitos podem pensar que a SBCEC representa os perfusionistas brasileiros. E estarão certos. Mas essa representação é apenas de direito, consagrada pelo tempo e pelas aparências, nem sempre fortuitas, mas não é de fato, consagrada por seus estatutos. E, como não podemos desconhecer, a que tem valor é a representação de fato, escriturada, consolidada e registrada, não a de direito, criada pelo tempo, pelas aparências ou pelos hábitos. O proprietário é o que assina a escritura. O morador pode ser um locatário ou um usuário, mas nunca o dono. No meu entendimento, os perfusionistas brasileiros não tem uma entidade representativa, conforme demonstra o Artigo 20. do Estatuto, que trata dos fins da entidade e que diz:

"Artigo 20. - A Sociedade, fundada em 02 de julho de 1979, sede e foro na cidade de Belo Horizonte, é órgão congregativo de profissionais atuantes nos vários campos da Ciência Biomédica, com interesse para o progresso e aprimoramento técnico e científico da circulação extracorpórea."

Com todas as desculpas aos que apreciam a pluralização profissional, no meu modesto entendimento, uma Sociedade de Circulação Extracorpórea deve ser o órgão congregativo (melhor seria representativo) dos perfusionistas. As demais categorias profissionais tem os seus próprios organismos representativos e, na prática, não adotaram a SBCEC como seu organismo congregador. Cirurgiões, anestesistas, hematologistas, intensivistas, fisiologistas e as demais categorias profissionais que atuam nos vários campos da Ciência Biomédica, com interesse para o progresso e o aprimoramento técnico e científico da circulação extracorpórea tem as suas próprias sociedades representativas e, por extensão, todos os problemas e dificuldades inerentes à sua gestão.

A existência de uma associação representativa dos perfusionistas, para todos os efeitos legais é, em verdade, uma das etapas iniciais do reconhecimento da categoria profissional. Ser interessado no progresso e no aprimoramento técnico e científico da circulação extracorpórea é correto mas é, sob os pontos de vistas, legal e prático, desprovido de qualquer valor. Uma análise mais crítica e mais severa (quase sarcástica) seria totalmente oposta ao texto em questão porque, na realidade, os maiores interessados no progresso e no aprimoramento técnico e científico da circulação extracorpórea são, sem qualquer dúvida, os pacientes. Assim, salvo melhor juízo ou mais ampla discussão, acredito que o texto do Artigo 20. dos Estatutos da SBCEC é vago, indefinido, impróprio, desatualizado e sem o alcance que a comunidade de perfusionistas precisa nos dias atuais, bem distantes do 02 de julho de 1979.

Os demais artigos e parágrafos dos Estatutos perdem valor quando se estreitam os fins de uma organização. E deverão ser re-escritos de acordo com aqueles. Isso, entretanto, deverá ser o epílogo de uma reunião ampla, ativa e participativa, diferente das que tem ocorrido nos últimos anos, por diversas razões que, com toda certeza, independeram da vontade dos colegas que tão generosamente dedicaram parte do seu tempo e do seu trabalho à manutenção das atividades essenciais da sociedade, até a presente data.

Por diversas razões, dentre as quais a falta de tempo e de espaço para uma discussão mais detalhada, os problemas e as dificuldades que os perfusionistas enfrentam no seu dia a dia e a melhor forma de ajuda que a sociedade pode oferecer, não são suficientemente conhecidas. E, por maior que seja o esforço - e esse não tem sido pequeno - a diretoria se sente só, com a responsabilidade das decisões que na verdade competem à toda a comunidade e não apenas aos representantes eleitos. Nenhuma sociedade moderna pode funcionar adequadamente se ouvir a opinião de uma pequena parcela dos seus membros apenas uma vez a cada ano.

Com a intenção de contribuir para minimizar, ao menos parcialmente, todas essas dificuldades, abrimos um espaço em Perfusion Line, que oferecemos a todos os perfusionistas brasileiros, para a discussão dos seus problemas, das suas dificuldades e, por extensão, das sugestões que possam contribuir para o aperfeiçoamento dos Estatutos e da sociedade, conforme a oportuna convocação da atual diretoria, à qual não temos o direito de nos furtar.

Chamamos de "TRIBUNA LIVRE" um forum criado especificamente para ser o espaço onde qualquer perfusionista pode apresentar idéias, sugestões, críticas, elogios ou comentários capazes de contribuir para a atualização, modernização, desenvolvimento e engrandecimento da nossa profissão e da nossa sociedade. A seção está aberta e pode ser utilizada por todos os que desejarem fazê-lo.

Divida com seus pares a responsabilidade de organizar e gerenciar a sua profissão e, principalmente, a sua representação profissional.

Espero que este espaço possa contribuir para o nascimento de algumas novas idéias ou para a discussão mais aprofundada de antigos tabús que não resistiram ao efeito do tempo mas, infelizmente, continuam vigentes nos estatutos que regem a organização que desejamos fazer progredir.

Como nesse caso em particular, as idéias são mais importantes que os seus autores, as contribuições poderão, a critério de cada um, ser assinadas ou resguardadas por pseudônimo.

QUERO OPINAR, DAR MINHA IDÉIA, SUGESTÃO OU APENAS DISCUTIR!


* Maria Helena L. Souza
Membro Titular da Sociedade Brasileira de Circulação Extracorpórea
Presidente do Conselho Latinoamericano de Perfusão
Editora da Revista Latinoamericana de Tecnologia Extracorpórea