Revista Latinoamericana de Tecnologia Extracorpórea XI,2,2004

EDITORIAL

SER OU NÃO SER, QUERER É PODER.

Maria Helena L. Souza

Rev Latinoamer Tecnol Extracorp 11,2,2004

Caros colegas:

Estamos na metade do ano 2004. Quando pensamos que realmente estamos acompanhando o crescimento da cirurgia cardíaca no mundo, com equipamentos mais sofisticados e melhor adaptados às necessidades dos nossos pacientes e das novas técnicas, encontramos pessoas, bem poucas, felizmente, que ainda pensam que o Brasil é diferente e que não precisa acompanhar as tendências mundiais em relação à formação de profissionais. A cirurgia cardíaca é uma área de trabalho em que todos os membros da equipe devem buscar o aperfeiçoamento contínuo e estudar cada vez mais, para manter-se atualizado, devido à extraordinária velocidade do seu progresso.

Este esforço de cada membro da equipe, é a mola capaz de levar ao sucesso as operações realizadas. O cirurgião cardiovascular, cada vez mais, necessita que sua equipe tenha um profissional perfusionista, com formação acadêmica e titulado por sua sociedade, exatamente como acontece no mundo desenvolvido. É surpreendente ver umas poucas tentativas de indivíduos com alguma "prática" em perfusão, procurar baixar os padrões de qualidade de toda uma profissão, porque lhes falta um diploma universitário. Pretendem mudar (para pior) o que o mundo já decidiu como sendo o adequado. O profissional perfusionista deve ser formado em curso específico com duração de 2 anos, após a obtenção de um diploma de terceiro grau no domínio das ciências biológicas e da saúde. Isso não é melhor nem pior; é apenas necessário e correto. Já não é segredo que em diversos países, algumas poucas equipes que ignoraram essa necessidade e aceitaram o trabalho de profissionais não qualificados para ministrar a perfusão, não apenas obtiveram resultados inferiores mas, enfrentaram sérios riscos de sofrerem ações judiciais, em verdade, impossíveis de serem contestadas.

Estamos caminhando para o reconhecimento da nossa profissão, depois de anos de trabalho e de estudo de todos os interessados na melhoria profissional. Infelizmente, várias equipes ainda trabalham com pessoas treinadas somente em serviço que, embora possam ser excelentes profissionais não possuem os requisitos exigidos pelas sociedades profissionais (CEC), que são as únicas entidades reconhecidamente capazes de emitir os títulos de especialistas.

Os indivíduos treinados em perfusão, no exercício dessa atividade e que desejam o reconhecimento como especialistas, ao invés de pleitearem a redução dos padrões exigidos pelas sociedades, devem qualificar-se nas universidades, para obter o necessário cabedal de conhecimentos que os habilitem ao melhor desempenho profissional. É simplesmente impensável que se queiram mudar estatutos e regulamentos para adaptá-los aos pré-requisitos insuficientes que alguns candidatos podem apresentar. É como se pleiteássemos mudar o nome de uma doença para poder dizer que não a contraímos, ao invés de buscar o tratamento necessário à sua cura.

Os poucos (contam-se nos dedos) cirurgiões que acreditam que a perfusão pode ser ministrada por um técnico com formação apenas prática, não viajariam em um avião conduzido por um "técnico em pilotagem", em substituição a um piloto qualificado.

A redução dos pré-requisitos de uma carreira que lida com a vida humana ainda não ocorreu em nenhum país e, com toda certeza, não ocorrerá em nenhum dos países que compõem o nosso bloco latinoamericano, especialmente o Brasil.

Os profissionais que já possuem seu título de especialista, dentre os quais me incluo, devem sentir-se desprestigiados com a tentativa de minimizar o valor do título que possuem.

As Sociedades de Circulação Extracorpórea até os dias atuais sempre ajudaram os seus membros e profissionais. Trabalhar na direção de uma sociedade, principalmente de uma sociedade médica, requer a doação de muito tempo e esforço, para ajudar aos seus membros. Os médicos, que são o nosso exemplo mais próximo, necessitam do título de especialista de sua sociedade e procuram cumprir as exigências das mesmas e não tentam modificá-las para atender aos seus interesses pessoais, o que seria impossível. Devemos seguir estes exemplos ou mudar de profissão.

A competição saudável, a busca por melhores resultados e a proteção contra ações judiciais farão com que, muito em breve, as equipes tenham a necessidade imperiosa de incluir em seus quadros os profissionais qualificados pela posse do título de especialista. Isto faz parte do desenvolvimento mundial da nossa profissão e não se conseguiu mudar o curso de eventos.

Sejamos realistas e vamos tratar das coisas que realmente tem importância para o progresso da nossa profissão. A qualificação profissional do perfusionista não é uma necessidade das sociedades nacionais mas uma exigência da sociedade a que servimos. Todas as pessoas querem - e muito - que as suas operações, as operações de seus pais e as operações de seus filhos, sejam realizadas por cirurgiões, anestesistas e perfusionistas competentes, qualificados e reconhecidos como especialistas.

A responsabilidade com a vida humana não permite improvisos ou adaptações.

Maria Helena
Presidente do Conselho Latinoamericano de Perfusão.