Revista Latinoamericana de Tecnologia Extracorpórea XI,3,2004

EDITORIAL

A SOCIEDADE REPRESENTATIVA DOS PERFUSIONISTAS.

Maria Helena L. Souza

Rev Latinoamer Tecnol Extracorp 11,3,2004

Caros colegas:

Nas últimas décadas temos observado grandes alterações nas relações entre as sociedades profissionais, no nosso caso, as sociedades de perfusão e os seus membros. Isso não é um acontecimento fortuito, gerado pela insatisfação de pequenos grupos com os rumos da sua sociedade representativa. Na verdade, trata-se de um fenômeno mais amplo, que teve início em torno da década de 80 (século XX), nos países ditos do primeiro mundo, principalmente da Europa e nos Estados Unidos.

Na nossa América Latina, um fenômeno semelhante ocorre nos dias atuais. A sua principal característica é um relaxamento natural das relações entre as sociedades e os seus membros, que progride para um distanciamento contínuo e crescente. A sociedade deixa de ser representativa dos seus membros e estes, por sua vez, deixam de considerar-se representados pela sua sociedade. Os vínculos entre sociedade e membros tornam-se frouxos, quase virtuais. O que ocorre com um deixa de ser relevante para o outro. A raiz do problema parece residir numa frustração recíproca de expectativas mal formuladas ou mal compreendidas. Os perfusionistas esperam que a sociedade resolva os seus problemas e as suas dificuldades e, ao mesmo tempo, a sociedade espera a adesão incondicional dos perfusionistas às suas iniciativas e decisões, nem sempre oportunas ou de interesse coletivo.

Ambos, perfusionistas e sociedades, parecem não perceber que os tempos mudam rapidamente. As necessidades de hoje estão distantes da realidade de ontem. Os perfusionistas, salvo honrosas exceções, não perceberam que a sociedade não é um ente real, criado para dar à luz soluções para todos os problemas da profissão ou dos profissionais. A sociedade somos nós. E antes de perguntar o que a sociedade pode fazer em nosso benefício, precisamos nos perguntar o que podemos fazer em benefício da sociedade. Ou da nossa coletividade. Sociedade e coletividade, na verdade, são exatamente a mesma coisa. Uma (a sociedade) representa a outra (a coletividade). A sociedade é constituída pelos membros da coletividade que se dispõem a doar um pouco do seu tempo e do seu trabalho em prol do bem comum. Apenas isso. Se muitos membros se dispuserem a doar algum trabalho em favor da coletividade a sociedade será forte e representativa. Se poucos membros se dispuserem a trabalhar pelo bem comum, a sociedade será fraca e a profissão não terá representatividade. Poucas coisas podem ser mais simples e mais cristalinas.

As relações profissionais dos dias atuais são muito dinâmicas devido à extrema facilidade das comunicações. O advento da Internet não apenas revolucionou, mas também democratizou as relações dos indivíduos entre sí e com as suas entidades representativas. Uma mensagem eletrônica pode ser enviada e alcançar qualquer ponto do planeta em alguns segundos. Essa realidade acaba com as dificuldades que as nossas dimensões continentais impunham ao nosso desenvolvimento, até anos atrás. E nós ainda não nos aproveitamos desses progressos.

Estamos diante de uma nova realidade. Estamos vivendo novos tempos e precisamos perceber isso. Precisamos de muitos colegas dispostos a doar um pouco do seu tempo e do seu trabalho para a nossa coletividade. Os frutos, ou a sua falta, serão sempre repartidos entre todos. Precisamos de uma sociedade ágil, dinâmica, forte e, portanto, representativa. E, apesar do apelo que o exercício de uma atividade comum pode ter, as relações modernas são pautadas, principalmente, pela equação que avalia a razão: custo /benefício. É preciso que a sociedade seja do interesse dos perfusionistas para que esses se aproximem dela e a tornem a sua representante "de fato" e não apenas "de direito". É necessário que haja "valor agregado". Que valor(es) agregado(s) pode ter uma sociedade de circulação extracorpórea ? Muito(s)!.

O primeiro e mais importante valor a ser agregado é tornar a sociedade verdadeiramente representativa dos perfusionistas. Isso requer uma re-engenharia da sociedade. A sociedade pode (e deve) abrigar todos os profissionais interessados em circulação extracorpórea. Contudo, apenas os perfusionistas devem ter o privilégio de discutir e votar as decisões que afetam a sua profissão. A sociedade deve ter, além da diretoria que os estatutos preceituam, diversos conselhos capazes de discutir, sugerir e administrar a concessão dos títulos de especialista, a produção de material educacional, a organização de cursos, simpósios e os congressos, as relações externas com a mídia, as relações públicas, as relações com as profissões interligadas (especialmente a cirurgia cardíaca, a anestesia cardiovascular, cardiologia, terapia intensiva, fisioterapia, etc.), as relações internacionais (com sociedades congêneres) para troca de informações e de material educacional, gestão do website e, muito importante, as relações e a organização profissional, que cuidará dos assuntos ligados à profissionalização. A profissão precisa ser conhecida pelo público a que serve, como ocorre em todo o mundo. Todas as pessoas sabem o que é uma ponte de safena, uma cirurgia de coração ou um transplante cardíaco. Todas conhecem o anestesista, o enfermeiro e o fisioterapeuta além é claro, dos cirurgiões e cardiologistas. Mas, praticamente, nenhuma delas sabe quem é um perfusionista ou o que faz um perfusionista.

Um perfusionista deve ser considerado membro da sua sociedade quando estiver em dia com as obrigações que assumiu ao solicitar o seu registro; isto quase sempre corresponde ao pagamento da anuidade. Quando estiver em débito, deve ficar em um quadro à parte e deverá ter os mesmos direitos que tem os perfusionistas que não são membros da sociedade. Os perfusionistas "em dia" com a sociedade devem ter muitos benefícios - compra de livros, CDs educativos, material didático em geral, inscrições nos congressos, cursos, simpósios e outras atividades frequentes com descontos generosos, enquanto os perfusionistas que não são membros da sociedade ou não estão quites com as anuidades devem pagar os valores plenos. Nisso consiste o valor agregado. É preciso ser vantajoso pertencer à sociedade. Os custos atuais de produção de material eletrônico são extremamente baixos e a Internet deve ser o veículo preferencial para a distribuição de material educacional, de reciclagem, etc..., sempre com vantagens para os membros quites com a anuidade.

O site da sociedade deve ser dinâmico e conter grande quantidade de material educacional, cursos, trabalhos, etc... O acesso à essa sessão do site deve ser restrito aos membros com as anuidades pagas e atualizadas. Os demais devem pagar pelo acesso, valores mais elevados. O site também deve ser administrado como um valor agregado de extrema importância.

Muitas e muitas idéias e sugestões podem ser usadas para acrescentar (agregar) valor à associação profissional. As reuniões das diferentes comissões e até da diretoria podem ser feitas pela Internet, através do website, exceto em ocasiões especiais. Enfim, uma sociedade moderna e representativa pode ser o elemento que falta para impulsionar de vez a nossa coletividade em direção às aspirações que temos há longos anos.

Isso, entretanto, deverá ser fruto do esforço daqueles que desejam um futuro melhor para a sua profissão e, com essa crença, se disponham a doar algumas horas de trabalho para o bem da coletividade a que pertence. Enquanto nós ficarmos simplesmente esperando, não iremos a lugar algum. Veremos o tempo passar, novas gerações chegarem e não teremos siquer bons exemplos para deixar como herança. Enfim, uma coletividade apenas se reune, organiza, dirige e progride quando está pronta para isso. Eu acredito que nós já estamos. E você ?

Maria Helena
Editora.