Revista Latinoamericana de Tecnologia Extracorpórea XII,1,2005

EDITORIAL

RUMO AO SÉCULO XXI.

Maria Helena L. Souza

Rev Latinoamer Tecnol Extracorp 12,1,2005

Caros Colegas:

A Circulação Extracorpórea nasceu como a irmã gêmea da cirurgia cardíaca moderna. Ao longo dos mais de cinquenta anos da existência de ambas, numerosos progressos aumentaram as suas afinidades e expandiram as suas utilidades. Nos dias atuais é possível a realização de cirurgia cardíaca de grande complexidade sem o emprego da circulação extracorpórea, ao mesmo tempo em que numerosos tratamentos utilizam a circulação extracorpórea, de curta ou de longa duração, não necessariamente para a correção de doenças cardiovasculares. Os campos de atuação de ambas, cirurgia cardíaca e circulação extracorpórea, ampliaram-se consideravelmente, nas últimas décadas e tudo indica que essa tendência será cada vez maior e mais rápida, tendo em vista a velocidade de aquisição e propagação do conhecimento dos dias atuais.

Os cirurgiões, apesar do domínio da tecnologia e dos melhores recursos destinados ao tratamento cirúrgico das doenças cardiovasculares tem enfrentado uma forte competição por parte dos cardiologistas e hemodinamicistas, pelo emprego cada vez mais frequente das técnicas endovasculares que, com menores riscos e resultados semelhantes, corrigem as estenoses vasculares com o implante de "stents", desde as artérias coronárias até aos vasos periféricos e cranianos de médio e até de pequeno calibre. A cirurgia ou, mais precisamente os cirurgiões, mediante o emprego das técnicas minimamente invasivas, de suporte circulatório parcial e ultra-rápido e da robótica, procuram oferecer métodos, técnicas e recursos que sejam ao mesmo tempo, eficientes, de menor custo e de recuperação mais rápida. Quase sem perceber, cirurgiões e cardiologistas, antes parceiros inseparáveis, adotam métodos terapêuticos que na verdade são complementares mas que, se não usados adequadamente, com extrema cautela e com avaliação cuidadosa, podem tornar-se antagônicos. E como as grandes diferenças, quando existem, apenas se mostram após 10 ou 20 anos de avaliação prospectiva de grupos homogêneos, não é improvável que os resultados dos tratamentos realizados por uma geração de profissionais apenas sejam conhecidos detalhadamente pela geração seguinte. A corrida pela melhor tecnologia, pelos menores custos e pelos melhores resultados apenas se inicia. E não cessa nas salas de cirurgia e hemodinâmica. Ao contrário, alcança os corredores e as demais unidades do hospital. E se as equipes e seus profissionais não estiverem todos, sem nenhuma exceção, bem preparados e qualificados, as discussões migrarão da ante-sala das unidades de terapia intensiva para a ante-sala dos conselhos ou dos tribunais de justiça. Já está ocorrendo em nossa região; um dia vai ocorrer na nossa casa.

Ao mesmo tempo, alguns dos grandes complexos hospitalares do primeiro mundo já mantém equipes de perfusionistas de plantão, nas unidades de emergência, para instalar e ministrar assistência cardiorespiratória a pacientes que não respondem às medidas clássicas de ressuscitação. Enquanto essas rápidas e profundas alterações ocorrem no mundo cardiológico, na nossa América Latina ainda encontramos alguns exemplares jurássicos que continuam sem saber que rumo deve tomar a perfusão e que tipo de profissional deve ser denominado perfusionista. Ainda se perguntam como deve ser treinado um perfusionista ? Qual a duração do treinamento necessária ao preparo de um perfusionista ? Que pré-requisitos deve ter um indivíduo para ingressar nos programas de formação de perfusionistas ? Como se essas e outras perguntas já não tivessem sido exaustivamente respondidas e demonstradas pelos milhões de procedimentos realizados mundo afora, desde a luminosa idéia de Gibbon.

Nós, perfusionistas, temos a maior parte da responsabilidade na distância científica, tecnológica e profissional que nos separa do mundo desenvolvido e dentro da nossa própria região. A nossa América Latina é caracterizada pela alternância. Alguns países que apenas engatinhavam no domínio da circulação extracorpórea tem seus perfusionistas bacharelados na Universidade, enquanto outros servem de modelo e de escola, quando antes, buscavam o conhecimento fora das suas fronteiras.

O baixo nível de organização coletiva e a aceitação de uma formação apenas regular, constituem os principais obstáculos ao desenvolvimento profissional do perfusionista. Ainda se treina perfusionistas "em serviço", com o velho conceito de "veja uma, faça a outra e ensine a próxima". O quarteto responsável pela melodia cardíaca: cirurgião, anestesista, perfusionista, intensivista, ainda tem no perfusionista o seu elo mais frágil. Um cirurgião poliglota e ambidextro obterá os mesmos resultados que o seu residente, se ambos mantiverem em sua equipe, perfusionistas que apenas aumentam ou diminuem o nível do perfusato no reservatório do oxigenador.

As populações, cada vez mais, estão em busca de garantias de que recebem o melhor serviço disponível, especialmente quando se tratam de procedimentos médicos e cirúrgicos de alto risco. Cabe às sociedades profissionais zelar pela formação e pelo aperfeiçoamento dos seus membros, pela certificação dos mais habilitados e pelo aprimoramento dos demais, conferindo a todos o "certificado de qualidade" capaz de assegurar que os serviços prestados estarão de acordo com os padrões recomendados para a sua realização. Fazer uma sociedade funcionar, entretanto, não é uma tarefa fácil. Consome energia, requer entusiasmo, dedicação, paciência, tolerância, vontade e, acima de tudo, independência, que se conquista com energia, entusiasmo, dedicação, paciência, tolerância e vontade.

Não há sonhos impossíveis nem metas inalcançáveis. Há os que querem conseguir e os que trabalham para conseguir. Estes últimos são sempre os que atingem suas metas, por mais distantes que estejam no começo da caminhada.

Com um cordial abraço,

Maria Helena