Revista Latinoamericana de Tecnologia Extracorpórea XII,2,2005

ESTUDOS PRELIMINARES EM DIREÇÃO AO "BOARD" LATINOAMERICANO.

Maria Helena L. Souza

Rev Latinoamer Tecnol Extracorp 12,2,2005

Caros Colegas:

Estamos nos preparando, no Conselho Latinoamericano de Perfusão (CLAP), para as discussões que deverão nortear a criação e o funcionamento do "Board" (nome que usamos provisoriamente, na falta de melhor conceituação) Latinoamericano de Tecnologia Extracorpórea. Esse novo órgão deverá conceder certificados a todos os perfusionistas que assim o desejarem, desde que cumpram os pré-requisitos estabelecidos.

Os membros do CLAP e a comunidade de perfusionistas, deverão discutir e regulamentar todas as etapas que levam à obtenção do certificado. Do mesmo modo que ocorre com os "boards" europeu e norteamericano, a finalidade primordial do certificado é assegurar o melhor serviço profissional possível à população, às instituições hospitalares, aos grupos cirúrgicos e aos demais interessados.

A certificação conferida pelo "board" constitui um "atestado de excelência" ou, em outras palavras, um verdadeiro "certificado de qualidade". O certificado do "board" significa que o seu portador demonstrou perante o "board" possuir um nível de conhecimento científico e experiência prática que o habilitam ao pleno exercício da atividade de perfusionista. Isso assegura à população, como ocorre com as demais profissões, que o perfusionista possui a necessária qualificação para o exercício da profissão reconhecida por seus pares. A qualificação profissional é demonstrada mediante a comprovação de estudos específicos, da prática de um número de casos sob supervisão experiente, mediante aprovação em exame de conhecimentos científicos relacionados à Tecnologia Extracorpórea ou por mecanismos adicionais que a discussão preliminar deve identificar.

O estabelecimento de um "board" tem efeitos adicionais altamente desejáveis, dentre os quais, um melhor nivelamento científico e profissional dos numerosos membros da nossa ampla e variada comunidade. Temos, na nossa América Latina, de um lado, grandes centros urbanos que realizam mais de 30 cirurgias cardiovasculares por dia enquanto no outro extremo, temos pequenos serviços instalados em cidades do interior, capazes de realizar apenas 1 ou 2 procedimentos por semana, em virtude de diversas carências, inclusive sociais, culturais e econômicas.

É muito importante ressaltar que alguns de nosso países latinoamericanos já dispõem de cursos universitários para a formação de perfusionistas desde há vários anos, enquanto outros estão em processo acelerado de criação de novas escolas e currículos. É notável a preocupação em complementar o treinamento em serviço com a melhor formação teórica possível e, como esperado, os perfusionistas assim treinados, desempenham suas atividades com o natural desembaraço de quem realmente conhece o seu trabalho.

Os profissionais dos países menores ou com menor número de centros de cirurgia cardiovascular, podem organizar-se em pequenos grupos e agregar-se às associações dos países maiores e, desse modo, obter benefícios que seriam dificilmente obtidos de outra forma. A congregação dos profissionais em atividade distante dos grandes centros urbanos e tecnológicos deve contribuir para um melhor nivelamento profissional e científico, capaz de beneficiar amplamente as populações e as equipes cirúrgicas que precisam se utilizar dos serviços dos perfusionistas. O papel de um "board" nesse contexto é importante, ao requerer dos candidatos uma bagagem mínima de conhecimentos necessários ao satisfatório desempenho profissional.

Nossa meta não é a criação de um exame de curto prazo. Ao contrário, o nosso principal objetivo é contribuir para a criação de centros de formação profissional, universitários ou com filiação universitária, capazes de formar os perfusionistas que a prática da tecnologia extracorpórea moderna e futura, em toda a sua extensão, exige. E que, cada serviço de cirurgia cardíaca ou que cada procedimento do vasto domínio da tecnologia extracorpórea, seja ministrado por um perfusionista adequadamente preparado, qualificado e certificado pelo "board".

A posse de um certificado do "board" serve para que as instituições e as equipes avaliem e contratem profissionais comprovadamente habilitados ao exercício profissional. Além disso, os exames para a certificação servem para demonstrar aos perfusionistas quais são os conhecimentos essenciais à adequada prática da sua atividade, em conformidade com os padrões de qualidade estabelecidos pela comunidade a que pertence. Ao mesmo tempo, permite a adaptação, o progresso ou o aperfeiçoamento dos que inicialmente não são qualificados pelos exames prestados.

Finalmente, um programa criterioso de recertificação periódica, assegura a manutenção de elevados padrões que a prática da especialidade, em sua plenitude, requer. A participação em cursos, simpósios, congressos, a leitura de livros e artigos, a apresentação e a publicação de trabalhos, constituem uma série de atividades de educação continuada que deverão servir para a manutenção da aptidão demonstrada pela certificação. Isso assegura aos pacientes, à sociedade, aos organismos controladores oficiais ou privados, a oferta de material humano qualificado e, portanto, habilitado à prestação dos serviços que a atividade requer e a sociedade precisa.

O empenho da nossa coletividade em materializar esses objetivos através da iniciativa dos membros do CLAP pode representar a aceleração capaz de diminuir o "gap" tecnológico entre a América Latina e o chamado "primeiro mundo", na nossa área de trabalho ou, ao contrário, pode representar a sua ampliação, na medida em que a ciência e a tecnologia progridem e nós estagnamos na preparação de profissionais mediante treinamento "em serviço", como nos tempos pioneiros, em que a falta absoluta de regras era o único regulamento em vigor.

Com um cordial abraço,

Maria Helena