REVISTA LATINOAMERICANA DE TECNOLOGIA EXTRACORPÓREA



***** EDITORIAL *****

NOSSA COMUNIDADE E A PRODUÇÃO CIENTÍFICA

Caros Colegas:

Todos os que tiveram a oportunidade de acompanhar a evolução da circulação extracorpórea nos últimos 20 a 30 anos, em nossos países, podem testemunhar o enorme progresso alcançado pela tecnologia.

Ao mesmo tempo, somos também testemunhas do progresso e do amadurecimento da profissão e dos profissionais perfusionistas. Evoluimos de uma fase empírica inicial, a fase de técnicos de perfusão, para uma fase mais tecnológica e científica, a fase de perfusionistas. Realizamos, ao longo do tempo, não apenas uma mudança de nome mas principalmente, uma mudança de formação, de mentalidade, de desempenho profissional e de atitudes.

Novos centros de formação profissional foram criados em todos os países latinos. Escolas de Perfusão foram organizadas e continuam funcionando, bem como foram criados diversas sociedades profissionais e um conselho latinoamericano. As sociedades nacionais passaram a organizar congressos periódicos, cursos, simpósios e outras atividades que dinamizam e acentuam o intercâmbio de informações e sinalizam para os rumos que orientam a tecnologia.

Toda essa evolução, sem qualquer dúvida, ocorreu paralelamente ao progresso e ao crescimento da cirurgia cardíaca. Como região, nos dias de hoje, na América Latina, participamos de aproximadamente 60.000 a 70.000 cirurgias por ano.

Entretanto, a nossa produção científica, não acompanhou o desenvolvimento tecnológico e profissional. Nossa produção é inferior a 10% do esperado, caso a produção científica tivesse acompanhado o desenvolvimento e o crescimento da profissão.

É lastimável que o material científico de extraordinária riqueza, vivido no dia a dia do nosso trabalho, não seja aproveitado. Não registramos nossas experiências, não aproveitamos a nossa prática para pesquisas clínicas e, principalmente, não escrevemos trabalhos.

Manter uma revista científica como a nossa é uma tarefa árdua, devido ao insuficiente afluxo de trabalhos científicos. Podemos contar nos dedos das mãos o número de trabalhos recebidos de autores latinoamericanos, que publicamos durante os oito anos de vida do nosso veículo de comunicação científica.

Devemos discutir e avaliar esse aspecto da nossa profissão com bastante preocupação. A maturidade que alcançamos não pode ser demonstrada, devido à falta de informação gerada pelas nossas próprias experiências. Se progredimos como profissão, não progredimos na mesma proporção, como profissionais. A evolução da nossa coletividade foi pequena e, não raro, é demonstrada apenas pelos esforços de um pequeno grupo de colegas que tem uma visão mais ampla e mais clara acerca das nossas necessidades. Estes procuram, com muito empenho, dinamizar as nossas sociedades e as iniciativas dirigidas à nossa comunidade.

Acredito que vamos atravessar uma fase de estagnação em nosso crescimento, que poderá ser longa, à espera de uma nova imagem que apenas poderá ser construída às custas de um exercício mais profissional e mais científico das nossas atividades.

As nossas novas conquistas, e precisamos de muitas, dependerão do que somos, mas dependerão também, sobretudo, da imagem que cirurgiões, anestesistas e intensivistas tenham de nós, como profissão e como profissionais. A posição de cada um de nós, em nosso meio ambiente profissional, está condicionada à imagem que a coletividade à que pertencemos, construa, às custas do seu trabalho, da sua bagagem científica e do uso que se faz de ambos, trabalho e informação.

Se desejamos desfrutar de uma posição importante na equipe em que trabalhamos, se desejamos mostrar o nosso crescimento ao mundo que gira em torno da perfusão, precisamos vencer a inércia que nos imobiliza. Precisamos demonstrar, na prática, o crescimento e o desenvolvimento que tivemos, na teoria.

Escrever e publicar um trabalho científico são tarefas simples, que geram um enorme benefício para a nossa coletividade. O trabalho científico constitui um fator diferencial. Ele mostra o zelo com que o profissional exerce o seu mister e coleta as suas vivências e experiências. Com ele, conquista-se o respeito, a admiração e o agradecimento dos seus pares e dos seus superiores. Mas, acima de tudo, o trabalho científico permite que as experiências do nosso árduo trabalho não sejam dispersas ou simplesmente perdidas ao longo do tempo.

É importante ter sempre em mente que nós somos um grupo, uma coletividade e, precisamos utilizar todos os recursos disponíveis em benefício da comunidade.

Uma revista forte representa uma comunidade forte. Uma revista interessante representa uma comunidade interessante. Uma revista apenas tépida representa uma comunidade tépida, em que há falta de estímulo ou de motivação eficaz. Nossos desejos não serão realizados por terceiros. Nós temos que conquistar aquilo que desejamos. Mas para que isso ocorra, precisamos demostrar que já estamos preparados.

Vamos fazê-lo!
Maria Helena


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