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Dario Birolini é Prof. Titular de Cirurgia do Trauma. Hospital das Clínicas da U.S.P. Reproduzido com permissão do autor. |
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Introdução
Estas linhas são dedicadas aos meus jovens colegas que se iniciam na carreira acadêmica e que se vêem na contingência de apresentar algum "tema livre". Fundamentam-se em longa vivência de jornadas e congressos e pretendem alertar sobre uma série de curiosidades que cercam tais apresentações orais e que, não raramente, dificultam a comunicação entre quem fala e quem ouve. Embora destinadas especificamente àquelas que pretendem apresentar breves comunicações orais, os chamados "temas livres", ainda assim algumas recomendações poderão ter um "espectro" mais amplo. Não interprete estas palavras como iniciativa de alguém que se acha imune às falhas que serão assinaladas. Pelo contrário, vai, nestas considerações, uma grande dose de autocrítica. Tenho a mais absoluta convicção de ter percorrido toda a longa seqüência de erros e cacoetes assinalados a seguir. Não me leve a mal, portanto. Seja como for, se ao ler as primeiras linhas, se sentir magoado por elas, nada mais fácil do que jogar tudo no cesto de papéis e esquecer o assunto. Se isto acontecer, ainda assim sugiro que, no futuro, passe a observar com espírito crítico o desempenho de outros apresentadores e conferencistas e, o que mais importa, seu próprio desempenho.
O Convite
Ser convidado a participar de um evento científico é, em princípio, motivo de satisfação. Na prática, entretanto, estabeleceu-se uma escala arbitrária (e, pelo menos em parte, injustificada) de valores, de acordo com a qual tipos diferentes de apresentações recebem "escores" diferentes. Uma conferência magistral de 60 minutos vale, digamos, 100 pontos. Já uma "mini-conferência" de 20 ou 30 minutos alcança nota 70 ou 80. Um tema livre não passa de 50 e um "mural", quando muito, é avaliado em 20 pontos. Não vou entrar no mérito da questão. Quero deixar claro, porém, que estou convencido que 15 minutos são tempo suficiente para discorrer com propriedade (ou pelo menos, para fazer uma análise clara e objetiva) sobre qualquer assunto. Depende, única e exclusivamente, de como se planeja e executa a apresentação. Por isso, ao ser convidado para um evento, se a Comissão Organizadora lhe conceder "apenas" 15 minutos, não se sinta menosprezado. Empenhe-se, isto sim, para fazer com que estes 15 minutos sejam os melhores do evento. Planeje sua participação com entusiasmo e objetividade, e apresente sua contribuição como se fosse a mais importante de sua vida.
Lembre-se, entretanto, que o requisito essencial para que sua atuação seja destacada é que você conheça bem o assunto. Não aceite um convite simplesmente porque se sente lisonjeado pela oportunidade de se apresentar em público ou porque deseja enriquecer seu currículo.
Finalmente, não se esqueça de sua responsabilidade, ao apresentar suas considerações: Deverá haver muitas pessoas inexperientes na platéia e que estarão propensas a aceitar suas afirmativas sem restrições e sem crítica e a aplicar o que tiverem ouvido. Vidas e saúde de pacientes podem depender do que você transmite. Portanto, cuidado. Não seja categórico demais. Tenha a humildade de aceitar que você pode estar errado ou que suas conclusões podem não ser definitivas.
O Planejamento
Como para qualquer outra iniciativa, o planejamento de uma apresentação é tão importante quanto a exposição em si. Por isso dedique-lhe tempo e atenção. Não deixe para a última hora. Não improvise uma apresentação, montando uma série desbaratada de diapositivos (dando graças a Deus pelo atraso do vôo!).
Minhas sugestões são as seguintes:
I - A elaboração do plano de trabalho
Uma apresentação de tema livre nada mais é, na realidade, do que a síntese verbal de um trabalho científico. Por isso, deve constar, em linhas gerais, dos mesmos componentes de um trabalho escrito:
O componente mais importante é, seguramente, a apresentação de seus resultados. Para tanto, é fundamental que haja resultados e que sejam seus. Em outras palavras, que sua apresentação se fundamente em dados concretos e não "nos seus 20 anos de experiência", no seu "achômetro", na sua "bola de cristal". Você somente chegará a ser respeitado cientificamente se sua comunicação se der através de dados e não de impressões. Através de "casuísticas" e não de "casos". A sua vivência "com aquele caso", a sua opinião a respeito do que deveria ou poderia ter sido feito são comentários interessantes, mas que devem ficar para a rodada de chope programada para a noite, com seus amigos e admiradores.
II - Preparação dos Diapositivos
O material utilizado para ilustração pode representar o ponto alto de sua apresentação ou significar a catástrofe total. Gostaria, por isso, de oferecer-lhe algumas sugestões básicas, que me parecem importantes.
A Apresentação
Digamos que você tenha planejado exemplarmente sua apresentação e que seus diapositivos sejam de excelente qualidade. Ótimo. Isto, porém, não garante seu sucesso. Existem ainda alguns aspectos importantes a serem considerados.
O treinamento costuma ser a forma mais eficiente de selecionar e ordenar seus diapositivos, de escolher suas palavras, de limitar-se ao tempo disponível. De preferência faça sua "prévia" na presença de alguém bem chato (como eu, por exemplo). Se não ficar satisfeito repita uma, duas, três vezes a apresentação, até memorizar a seqüência dos diapositivos, de modo a não ter que olhar ostensivamente para a tela durante a apresentação, para ver o que está escrito no diapositivo que está sendo projetado ou à espera do diapositivo seguinte. Nada mais constrangedor que o silêncio que precede o pedido do "próximo diapositivo", que deixa patente que você não tem a mínima idéia do que irá dizer a seguir. Lembre-se (e desculpe a insistência) que o diapositivo deve ilustrar sua fala, e não servir como "cola". Não hesite em preparar o texto de sua apresentação por escrito e em lê-lo, se isto lhe der maior segurança. Esta atitude em nada diminui seu brilhantismo, e pode contribuir substancialmente para aprimorar seu desempenho (particularmente quando acontece a catástrofe mais temida: a queima da lâmpada do projetor de diapositivos). Aliás, escrever o trabalho a ser apresentado deveria ser um hábito, ainda que o texto não fosse utilizado na apresentação.
Não deixe de encarar seus interlocutores: dar aula "de costas" não é, decididamente, uma postura recomendável! A comunicação visual (olhos nos olhos!) é essencial. Evite ficar com as mãos no bolso, limpar seus orifícios naturais (refiro-me aos vestíbulos das fossas nasais e aos ouvidos), se coçar, etc. Ao usar o microfone, procure mantê-lo à distância adequada da boca e não "passeie" com ele por aí, ao redor de sua cabeça. Um dos erros mais comuns observados é a "queda" do microfone que, progressivamente, passa a transmitir os batimentos cardíacos do apresentador e, a seguir, seus ruídos hidro-aéreos, em prejuízo de suas palavras. Ou, então, sua utilização como ponteiro.
Carregá-lo nas costas, à moda de uma vara de pescar ou de uma trouxa, também não é recomendável. Entretanto, o erro mais freqüente consiste, sem dúvida, no total esquecimento por parte do apresentador de que o ponteiro serve para chamar a atenção da platéia, para um ou outro ponto que mereça ser ressaltado. É comum que o apresentador utilize o ponteiro para si, ou seja, aponte a imagem desejada sob sua própria perspectiva, esquecendo que o ângulo de visão dos que assistem é totalmente diferente. Nestas circunstâncias, torna-se necessária uma imensa ginástica mental e uma grande dose de conhecimentos de geometria espacial para traçar a linha imaginária que, prolongando o eixo do ponteiro, une sua extremidade à imagem projetada na tela. Geralmente quando o ouvinte consegue a façanha, já está sendo projetado o diapositivo seguinte. Recentemente está sendo utilizado, com freqüência crescente, o ponteiro "laser". É um instrumento excelente, mas perigoso quando mal utilizado, pois pode causar torcicolo e crises de labirintite e de cinetose em quem senta no auditório. De fato, a manchinha vermelha projetada pelo aparelho produz um efeito hipnótico na platéia. Os olhos não conseguem desprender-se dela e a acompanham dentro e fora da tela, quando circula alucinadamente pela imagem projetada, quando passa a velocidade supersônica pelo assoalho e pelo teto ou quando dança loucamente pelas paredes. Por isso, utilize o ponteiro laser através de impulsos curtos e firmes, e somente para enfatizar o que lhe interessa demonstrar. No intervalo, não se esqueça de tirar o dedo do "gatilho".
Uma palavra final a respeito dos cacoetes. "Né", "tá", "certo", "quer dizer" e muitos outros poluem as apresentações, às vezes de forma tão ostensiva, que o ouvinte é tentado a contá-los, quando não a fazer apostas com os vizinhos: quem conseguir acertar o número de "nés" ganha o "bolão". Há quem inclua um "extremamente" a cada três palavras, talvez para tentar convencer a platéia da importância de suas idéias (particularmente quando elas não são tão importantes assim !). Tente ouvir-se. Preste atenção em sua linguagem. Registre, se puder, suas apresentações e ouça-as com calma.
Os Sinais de Alerta
Por melhor que seja seu preparo e seu material, sua apresentação pode não estar satisfazendo ou motivando os ouvintes. Aliás é praticamente impossível que você consiga despertar o interesse de todos. Como em qualquer outra atividade, há dias em que o nosso desempenho é brilhante e outros em que o é, mas não tanto. Não fique triste, portanto, se verificar que a freqüência não alcança as 1.000 pessoas que você esperava ou se, ao acender as luzes, perceber que meia dúzia de "indisciplinados" se esgueiraram, aproveitando a escuridão. São os ossos do ofício! Há, entretanto, alguns sinais de alerta, claras evidências de progressivo desinteresse, que você deve aprender a reconhecer e valorizar para, quem sabe, mudar o tom de sua apresentação, soltar alguma piada, pedir luz, derrubar o microfone ou, em última instância, chegar mais depressa às conclusões.
Os sinais de alerta reúnem-se em dois grandes grupos: os que surgem quando a platéia, por quaisquer motivos, é impedida de retirar-se, e os que acontecem quando a platéia sente-se livre para abandonar o recinto.
Entre os primeiros, que caracterizam a platéia "cativa", podem ser reconhecidos vários subgrupos que dependem da hora, do local, de fatores climáticos (sol/chuva, frio/calor etc.), do nível etário e cultural dos ouvintes e de outros vários fatores.
Entre o segundo grupo, o da retirada facultativa, há três síndromes que refletem um prognóstico progressivamente mais sombrio para seu desempenho: A da "retirada ocasional" de prognóstico ainda favorável, a da "retirada em cadeia" de prognóstico reservado e a da "retirada em massa", que decreta o fim de suas esperanças.
Realmente não sei lhe sugerir o que poderá fazer para interromper a debandada. Uma atitude aceitável (pelo menos para seu ego), é interpretá-la como devida à ignorância própria da platéia, que não consegue alcançar a profundidade de suas palavras, e continuar impassível até que o seu tempo se acabe (ou que a platéia se esvazie). Outra, já sugerida acima, é tentar alcançar rapidamente as conclusões e, ao chegar em casa, fazer uma análise honesta da apresentação à procura de eventuais falhas. Aliás, as duas atitudes não são reciprocamente excludentes.
Conclusão
Concluo como comecei: Se você nada aprendeu de novo, jogue fora este folheto no cesto de papéis ou passe-o adiante para algum neófito, de preferência seu inimigo, e ostensivamente, de modo que ele perceba claramente o que você pensa a respeito de suas (dele) apresentações.
Caso tenha achado interessante este "papo", utilize as sugestões nele contidas em sua próxima apresentação. Quase certamente você continuará cometendo alguns "pecados". Todos nós o fazemos: Forçados pelo cansaço ou por algum compromisso de última hora, obrigados a participar, por "dever de ofício" ou amizade, no lugar de alguém, traídos pelo computador que "pifou" no meio do caminho ou pelo fotógrafo que esqueceu o compromisso assumido, semicomatosos pelo plantão da noite passada ou pelo último copo de vinho tomado no almoço, etc., etc., etc.
Não desanime e continue se esforçando.
Sucesso é o que lhe desejo !!!
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(*) Válidas também para outras formas de participação em eventos. São Paulo, setembro de 1990 (revisto em 1997) (Ilustrações Originais: Paulo Eduardo V. Birolini) |